Em um dos pontos em que acredito que a meditação se encontra com a psicanálise é na percepção de que muitas das nossas preocupações são padrões de repetição — na psicanálise, seria o sintoma; na meditação, as tais “auto-conversas” que denunciam uma mente intranquila, com emoções ainda não elaboradas.
Tenho pensado sobre isso há um tempo. Ao observar algumas ruminações diárias, percebo que elas podem ser novas na sua forma, mas não passam de repaginações de preocupações antigas. A experiência é simples: não importa o quanto eu “resolva” o objeto da minha preocupação, o problema vai emergir de outra forma ao longo do tempo.
É o tal do sintoma, dos padrões de repetições que fazem, por exemplo, que situações similares se repitam, mesmo que se mude as circunstâncias e os atores.
Um dos objetivos da meditação é cessar o sintoma, que muitas vezes aparece na forma de uma auto-conversa. “Eu tenho que fazer isso, eu tenho que fazer aquilo, aquilo ainda não está bom o suficiente”.
Mas quem disse que tem que? Quem qualifica o que não está bom o suficiente? Essas são questões que têm surgido pra mim — e que denunciam, muitas vezes, o caráter pouco concreto e pouco objetivo dessas ruminações, como se elas fossem fantasmagorias de mensagens subliminares. Não adianta eliminar o objeto. Ele vão surgir de outra forma.
Voltando à meditação. O exercício básico muitos conhecem. Encontra-se uma posição confortável. Fecha-se os olhos. Presta-se atenção no fluxo natural da respiração, imaginando os pensamentos como folhas que caem. Não há o que fazer. Não há o que agir. Não é preciso mudar nada. Basta ser.
E, nesse sentido, a auto-conversa do superego (aquele da segunda tópica freudiana, a moralidade que “doma os instintos”) não tem porque existir.
Em um primeiro nível de meditação, ao cessar a auto-conversa, chega-se em uma emoção; que, eu diria, estar na sua forma “pura”, não valorativa. O exercício é continuar respirando ao chegar nessa emoção sem fazer com que ela seja o início de um novo ciclo de pensamento.
Interrompe-se, assim, o sintoma. Por isso, acredito que a meditação é uma ferramenta na quebra desses padrões de repetição. Não é só sobre o relaxamento. É a percepção de que não é sobre aquele objeto específico — “o texto pra terminar, o dinheiro que não vem” — mas a auto-conversa que se tem sobre o objeto.
